O trabalho com famílias empresárias que se fundamenta na vertente da psicanálise parte do pressuposto de que há um enigma insondável: uma família é uma instituição extremamente complexa povoada de forças contraditórias que resultam em algo muito difícil de ser acessado – o fato de que o amor e o afeto não se divorciam de uma tensão própria de vínculos interpessoais.
A orientação de uma intervenção que se inspira na psicanálise tem uma compreensão que enxerga saúde na possibilidade de vocalizar conflitos, desencontros e diferenças. É importante que tal pressuposto seja esclarecido. É muito comum que pautas denominadas como ” gestão de conflitos” e ” comunicação” sejam veiculadas em textos que descrevem boas práticas de governança corporativa. Que existam fóruns destinados a tratar de temas sensíveis e decisões delicadas numa família empresária não significa que os mesmos sejam de fato eficazes. Isto é: não significa que cumpram a sua função.
É muito difícil instaurar uma cultura viva de governança saudável numa família empresária pois o risco de que a mesma seja compreendida como formalidade e protocolo esvaziado de sentido e de verdade não é pequeno. O viés jurídico que muitas vezes circula na prestação de serviços dessa natureza também traz consequências: transmite-se um modelo mental que é o da positividade lógica da lei descolada de uma compreensão que privilegia a realidade do inconsciente.
Privilegiar a realidade do inconsciente como eixo de trabalho significa uma sólida formação prévia que orienta uma forma de escutar e atuar no campo que capta as sutilezas daquilo que não é dito e modula gradual e delicadamente o processo de forma artesanal- não há manuais prévios. Há um processo e uma construção conjunta. É uma abordagem epistemológica outra, uma vez que a invenção de Freud representa uma quebra paradigmática no universo da ciência. O inconsciente – como o próprio nome diz – representa algo que não pode ser conhecido. No entanto, tem estatuto de existência pelos seus efeitos: chistes, atos falhos, sonhos, atrasos, atuações diversas.
Evidentemente que o arcabouço jurídico é fundamental no desenho do planejamento sucessório. Uma coisa não exclui a outra. O diferencial de uma proposta de cunho psicanalítico é o cuidado intangível sistemático em prol de uma cultura amadurecida de trabalho atenta para cuidar dos contornos, limites e desencontros sutis que se apresentam no miúdo da rotina da vida de convivência delicada na qual a alçada profissional do trabalho se mistura tanto com a alçada afetiva da família.
É o investimento cuidadoso de não confundir as estações: profissionais podem ser pessoas de confiança. No entanto, não são membros da família. Há uma intimidade própria da família que deve ser preservada. Há um enquadramento nítido que delimita papéis e responsabilidades que precisa ser nomeado e transmitido.
Pequena Miss Sunshine é um filme muito bonito e instigante para pensar questões próprias de uma família. ” O que é sucesso ? ” ; ” O que é padrão de beleza?” ; ” O que é suportar a alteridade ?” são todas questões que se apresentam e circulam no grupo. Personagens muito distintos às voltas com a tarefa delicada de conviverem e se diferenciarem no limite do que escapa à possibilidade de ser partilhado e assimilado. No final apresenta-se a conexão genuína e espontânea possível.
É melhor estarem juntos do que separados, parece ser a mensagem que encontram no devir da viagem. É a pergunta incontornável que toda família empresária enfrenta na sua sucessão. Nada é natural nem dado na vida. É importante que o grupo assuma e escolha se prefere seguir a viagem juntos ou não.
Héctor Lisondo
O Instituto Lisondo é uma Consultoria Boutique fundada em 1998 com o propósito de promover o desenvolvimento de pessoas e empresas através de propostas customizadas e bifocais (aspectos técnicos e humanos simultaneamente abordados).
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