Fragmentos da pesquisa: A Clínica psicanalítica da Governança nos processos sucessórios na pequena e média empresa familiar brasileira
Aos poucos compartilho trechos do meu esforço de formalizar uma lente psicanalítica para pensar governança em pequenas e médias empresas familiares. A genialidade da obra de Freud é mostrar o tempo todo como é tênue a distinção entre o ” normal” e o ” patalógico”. Uma família empresária facilmente pode converter sua potência na sua ruína se não há cuidado. A genialidade de todos os empreendedores também pode ser seu veneno numa passagem geracional.
O bonito da lente psicanalítica é a aposta no laço institucional que se organiza não pela vertente da positividade do direito. O laço institucional se desenha no processo com paciência para as hesitações, com sensibilidade para captar não-ditos e com a alegria de respeitar o protagonismo dos atores da família. Somos artesãos discretos que permitem um processo de cuidado.
Este trabalho também se justifica em função da lacuna de pesquisas e referências psicanalíticas vinculares que pensem a especificidade deste campo [1]. Uma empresa familiar é um campo de sobreposição de duas instituições muito complexas nas quais a passagem do tempo incide e apresenta uma tensão de alta voltagem emocional: a pressão da responsabilidade de que o negócio seja conduzido e transformado em função das novas circunstâncias e necessidades do mercado é acompanhada da pressão da tarefa de discriminação geracional, qual seja: a construção original de um caminho afetivo, existencial e vincular que se assume e sustenta fora do clã original. A grande encruzilhada entre a dimensão do mercado e da cena pública e da dimensão da sociedade e da cena privada na multiplicidade de atores e de lugares geracionais.
A grande mescla entre as consignas éticas e institucionais de uma família que também criou um negócio- formar sujeitos desejantes e emancipados ao mesmo tempo que futuros acionistas e profissionais responsáveis e talentosos. Se uma empresa cresce numa progressão aritmética, uma família o faz numa progressão geométrica. Em outras palavras: uma pequena empresa familiar não é capaz de promover o crescimento da sua condição de gerar riqueza na mesma proporção e velocidade que acontece o crescimento da família.
Este dado de limite da realidade é fundamental para apresentar a complexidade da cena: definição de políticas e vocalização de critérios de realidade que acomodam e conjugam a institucionalidade possível numa família em que todos os filhos sucessores são iguais perante a lei ao mesmo tempo que não o são: há sempre histórias, experiências, competências, valores díspares. A negociação tensa de simetrias e assimetrias entendidas como legítimas e de critérios de remuneração que sejam considerados suficientemente justos e coerentes.
O trabalho numa passagem geracional numa família empresária é o de captar que o risco de atuações da ordem da arbitrariedade se apresenta. E pensar este fenômeno de modo histórico- relacional: o Brasil é um país de uma história democrática muito recente no qual o laço social é frágil e a violência do Estado, flagrante. O pano de fundo de toda pequena e média empresa familiar no Brasil é povoado pela herança de uma cultura que não valora as mediações simbólicas institucionais da vida social e no qual a lei é dimensão muito confusa e contraditória no seu lastro articulador e organizador de interesses que regulam a parte e o todo; o individual e o coletivo é uma questão em aberto: as instâncias do Estado e seu papel de promover e executar políticas públicas favoráveis ao bem-viver coletivo é uma promessa que facilmente se desqualifica e desacredita na sua agência inspiradora de esperança fiável. Este quadro também tem como consequência as feições romantizadas que recobrem a instituição da família empresária como espaço sedutor e convidativo: se o “fora” é hostil, resta agradecer o abrigo seguro e confiável da célula privada da família empresária.
O que não deixa de ser um vértice verdadeiro: uma empresa familiar é um campo de experimentação, aprendizagem e trabalho que pode ser muito inspirador. Ao mesmo tempo que pode ser muito violento e aprisionante já que o lócus afetivo de figuras parentais responsáveis pela formação de sujeitos emancipados coincide com o lócus de chefias profissionais responsáveis por assegurar resultados corporativos e vaidosas do empreendimento a ser transmitido para a linhagem sucessora.
Afeto e controle se mesclam com muita força no percurso de socialização dessas famílias. Há um grande imbróglio neste quadro que um processo sucessório deflagra – as forças conservadoras para o cuidado com a preservação da obra herdada são razoáveis e pertinentes. No entanto, precisam ser moduladas para que não se confundam com dogmas intrusivos e inviabilizadores das bem-vindas transformações.
[1] Não são encontrados artigos de cunho psicanalítico na base de dados da Scielo no país (a partir da busca pelo termo “empresa familiar”). Busca realizada em 20/09/23.
Héctor Lisondo
O Instituto Lisondo é uma Consultoria Boutique fundada em 1998 com o propósito de promover o desenvolvimento de pessoas e empresas através de propostas customizadas e bifocais (aspectos técnicos e humanos simultaneamente abordados).
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