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O fio da história numa família empresária: a cadeia de gerações

“O indivíduo tem de fato uma dupla existência, como fim em si mesmo e como o elo de uma corrente, a qual serve contra – ou, de todo modo, sem a sua vontade (…)” (Freud, 1914/1986)

O texto de Freud de 1914 sobre o narcisismo é chave para a psicanálise vincular.  A noção de inconsciente pode ser  lida através de muitos vértices. Cada escola da psicanálise sistematizou a sua concepção. A psicanálise vincular realça um paradigma de que o inconsciente é grupo e de que toda constituição psíquica é resultado de heranças conhecidas e desconhecidas. Existe um fio geracional em toda família que vai muito além da geração antecedente. 

É por essa razão que o trabalho de governança em empresas familiares numa sucessão carrega algo de misterioso.  Isto não quer dizer esotérico. Isto quer dizer que todos nós temos um acesso parcial às histórias de nossas ancestralidades. E que estes personagens, suas sagas e seus dramas afetam o grupo. Uma geração às voltas com a sucessão ( passagem da empresa da geração fundadora para a seguinte) é interpelada pela ” sucessão” anterior. Todo empreendimento empresarial nasce porque a geração fundadora enfrentou a sua batalha geracional: precisou fazer algo com as heranças recebidas dos seus pais – avôs e avós de quem é filho/ filha de fundadores. 

É necessária muita paciência na condução de um trabalho dessa natureza. Eu defendo que um trabalho de governança fundamentado na psicanálise é também um trabalho de memória e de articulação entre o passado, o presente e o sonho futuro possível. É comum que escute dos clientes: ” não vamos falar do passado. Vamos falar daqui para frente”.  Com delicadeza o processo evidencia que é impossível projetar um futuro afinado com as transformações da sociedade e do mercado sem atravessar os ” fantasmas” e forças do passado. É essa a tarefa numa análise individual. É essa a tarefa institucional numa governança com a abordagem psicodinâmica. 

Se tudo vai bem, a equação complexa acontece: cada geração discrimina a potência do ” pântano” e é capaz de fazer a sua história de maneira autoral. Numa família empresária este desafio tem outra voltagem emocional pois as esferas se confundem com muita intensidade. A dimensão da vida pública se mescla com a dimensão da vida privada. O lócus de realização profissional é também lócus das relações fraternas na sua polifonia de afetos. 

É uma ilusão a possibilidade de cindir completamente as coisas.  A vida requer a construção ” personas ” a depender do contexto. Essa é uma verdade. No entanto, a condição humana é povoada por todas as nossas ” faces” – o registro do profissional, do íntimo, do afetivo, do fraterno, da vida social, do corpo, do sintoma, do imponderável são esferas em permanente relação. 

Filmes podem ser elementos mediadores valiosos. “Sunshine – O despertar de um século” é um filme muito bonito que alcança essa visão multiespectral de uma família na sua cadeia geracional. Os dramas e movimentos da sociedade se infiltram nas subjetividades desenhando destinos e impasses que são distintos e carregam algo de ” similar” nas distintas gerações. Essa é a perspectiva de Kaes. ” Um Singular Plural” (2001) sublinha: toda lente do individual é uma lente do coletivo.  Não é possível compreender os grupos no presente sem compreender os grupos de filiação do passado. “Sunshine – o despertar de um século” apresenta a saga de uma família judia na Hungria. Os tempos se ” amarram” naquilo que os personagens constroem e recusam no devir dos tempos.  Essa não deixa de ser também a tarefa de um trabalho de governança. 

Referências Bibliográficas: 

Freud, S. (1914/1986). Para introduzir o narcisismo. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago.  

KAËS, R. Um singular plural. São Paulo: Loyola, 2001.

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A ÓTIMA Estratégia e Gestão é uma empresa de Consultoria e Treinamento de Gestão, nas áreas de Planejamento Estratégico, Sistemas de Gestão, Treinamentos e Projetos de Melhoria Lean 6 sigma. Tem como foco o desenvolvimento de projetos que tragam ganhos significativos em produtividade, qualidade e redução www.otimaeg.com.br

ROGÉRIO YUJI TSUKAMÓTO

Prof. e coordenador dos programas de Gestão de Empresas Familiares (EAESP-FGV/SP); Prof. de Empreendedorismo, História Empresarial e Sucessão Familiar em programas executivos da USP, Fundace e INEPAD; Membro do IBGC Instituto Brasileiro de Governança Corporativa Mestre em Business Administration pela The Wharton School of the University of  Pennsylvania (EUA). Um dos mais renomados consultores, em planejamento sucessório para empresas familiares em diversos segmentos, como: Cosan, Petróleo Ipiranga, O Boticário, Tigre, Ajinomoto, ABERT (Rádio e TV), ABRAS (Supermercados), SindPetro e muitas outras. [email protected]

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